25 de outubro de 2013

Cicatrizes

Quem tem alguma cicatriz levanta a mão o/. Você tem alguma história sobre como “ganhou” sua(s) cicatriz(es)?
Tenho uma cicatriz rosada na coxa esquerda de quando me queimei com café(!) em 2006.  Nessa mesma coxa tenho uma cicatriz de quando me cortei com arame farpado por volta dos 5 anos de idade. Tenho uma cicatriz na palma da mão direita de quando caí aprendendo a andar de bicicleta. Tenho outra na canela esquerda de quando me machuquei num dos brinquedos de um acampamento de dia das crianças. A cicatriz mais antiga que tenho é na sobrancelha esquerda. De acordo com minha mãe caí da cadeira quando tinha uns 3 anos. Vocês acham que são muitas? É porque não conhecem um dos meus irmãos. Ele quebrou a cabeça duas vezes (que eu lembro). Quebrou o dedo do pé jogando futebol. Ele perfurou o canto do olho com um lápis! Talvez a pior de todas foi quando ele cortou o antebraço em arame farpado num retiro. Todos esses machucados o levaram para o hospital e a maioria teve que ser ponteada. Eu só fui pro hospital por causa da queimadura, então ainda estou no lucro.
Essas cicatrizes que mencionei são aquelas que machucam temporariamente, mas depois elas curam e só ficam as marcas para a gente lembrar e comparar quem era mais teimoso na infância. 

 O corte é fundo, mas nunca profundo o bastante para mim
 Não machuca o suficiente para me fazer esquecer.
 Um momento de alívio nunca dura o bastante
 Para fazer com que as vozes na minha cabeça não roubem minha paz

Existem outras cicatrizes e machucados que são mais complicados. Certas cicatrizes não são visíveis, mas elas existem e podem causar muitos problemas emocionais e psicológicos.  Como é o caso da Kirsten.
Kirsten, assim como 99% da humanidade, sofre com culpa e vergonha. O leitor não consegue identificar logo de cara do que se trata exatamente, mas dá pra perceber que a garota tem muitos problemas emocionais que se acumulam até o fatídico dia em que seu namoro vai para as cucuias.

 Posso parecer louca
 Ou dolorosamente tímida
E essas cicatrizes não estariam tão escondidas
 Se você apenas me olhasse nos olhos
 Me sinto sozinha e fria aqui
 Mesmo não querendo morrer
 Mas é o único anestésico que me faz sentir algo morrer por dentro

Wes, o namorado, é completamente sem noção.  Mas a família (desestruturada) da Kirsten também não fica atrás.
O livro me fez pensar em quantas vezes carregamos tanta coisa dentro da gente, tanta culpa e vergonha por coisa que fizemos, que nos fizeram, e não conseguimos nos redimir, até que um dia tudo parece explodir e desabamos. 
Nunca cometi automutilação e nunca conheci pessoalmente alguém que sofresse com isso, mas como é algo tão profundo e pessoal, não acho que ficaria tão claro assim. Por exemplo, Kirsten não corta os braços como é comum para quem sofre desse distúrbio, ela escolhe partes do seu corpo que outras pessoas não vão ver facilmente, como as coxas, os ombros, a barriga. O que é mais perturbador talvez é que ela sabe exatamente quando e porquê ela fez cada corte.

 Não sou uma estranha
 Não, sou sua
 Com tanta raiva
E lágrimas dolorosas que ainda caem
 Mas não quero ter medo
 Não quero morrer por dentro só para conseguir respirar
 Estou cansada de não sentir nada
 Alívio existe e encontrei quando
 Me cortava

O livro me fez refletir sobre o fato de que somos capazes de criar outros métodos de “mutilação” para lidar com a culpa e a vergonha. Não apenas a automutilação.
E que um dos maiores problemas que essas pessoas sofrem é que ou elas são taxadas como suicidas ou como pessoas que só querem chamar atenção para si mesmas (como a mãe da Kirsten acredita). Eu acho que é mais uma forma de pedir socorro, mas sem saber como.
Kirsten inicia seu processo de restauração de uma forma bem inusitada, mas que serve de lição para todos nós. Enquanto ficarmos escondendo todos esses sentimentos sem encará-los de frente, somos nós mesmos e aqueles próximos a nós que se machucam. E claro, para Deus não existe nada, nada mesmo que não possa ser redimido.
“Tente ouvir o eco de Deus. É onde a terapia começa.” (p.126)

 Existiam cicatrizes antes das minhas
 O Amor escrito nas mãos que colocaram as estrelas no céu
 A Esperança vivendo no sangue que foi derramado por mim


Título: The Merciful Scar*
Autoras: Rebecca St. James & Nancy Rue
Editora: Thomas Nelson
Ano: 2013
Páginas: 355 
Comprar: Amazon / ChristianBook 


Kirsten has spent her life trying to forget. But mercy begs her to remember.
When she was in high school, a terrible accident fractured her family, and the only relief Kirsten could find was carving tiny lines into her skin, burying her pain in her flesh. The pain she caused herself was neat and manageable compared to the emotional pain that raged inside.
She was coping. Or so she thought.
But then, eight years later, on the night she expects her long-time boyfriend to propose, Kirsten learns he's been secretly seeing her best friend. Desperate to escape her feelings, she reaches for the one thing that gives her a sense of control in the midst of chaos.
But this time the cut isn't so tiny, and it lands her in the psych hospital. Within hours of being there she knows she can't stay--she isn't crazy, after all. But she can't go back to the life she knew before either.
So when her pastor mentions a treatment program on a working ranch, Kirsten decides to take him up on the offer and get away from it all. But the one thing she can't escape is herself--and her shame.
The ranch is home to a motley crew, each with a lesson to teach. Ever so slowly, Kirsten opens herself to embrace healing--even the scarred places that hurt the most. Mercy begs her to remember the past . . . showing her there's nothing that cannot be redeemed.

Músicas citadas (clique para ouvir):
Control – JJ Heller
Cut – Plumb  

Outros livros que tratam sobre o assunto (que já li):
Cut – Patricia McCormick
Handle with Care – Jodi Picoult.




* Recebi esse livro gratuitamente através do Programa BookSneeze®  especificamente para esta resenha.
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